Governo Lula vê “Escudo das Américas” como brecha para influência dos EUA
Planalto avalia que combate ao crime organizado pode abrir caminho para pressão sobre minerais e infraestrutura.


O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia que a declaração do “Escudo das Américas” — assinada na terça-feira (22.set.2026) por 15 países, sob liderança dos Estados Unidos — extrapola o combate ao crime organizado e abre brecha para ampliar a influência norte-americana na América Latina. O acordo foi divulgado à margem da Assembleia Geral da ONU, em Nova York.
A leitura no Palácio do Planalto é de que o texto é muito grave e funciona como porta de entrada para uma reedição da Doutrina Monroe. Há o entendimento de que o crime organizado é apenas o primeiro tema a ser tratado dessa forma, abrindo precedente para Washington interferir em outras pautas estratégicas regionais, como a regulação de <i>big techs</i>, a presença chinesa na infraestrutura local e o controle sobre minerais críticos.
Para o governo Lula, os EUA têm interesse em um resultado eleitoral favorável à direita no Brasil. A pressão comercial dos EUA, a articulação de Flávio Bolsonaro (PL) com autoridades norte-americanas e declarações sobre o pleito brasileiro são sinais das intenções de Washington e, na avaliação do Planalto, uma interferência.
O <b>Poder360</b> apurou que o risco não é visto no que a declaração diz, mas no que ela sinaliza. O documento tem 3 eixos: econômico, de segurança e de coordenação multilateral. No primeiro deles, os signatários se comprometem a proteger as cadeias de suprimento de minerais críticos com base em “fontes diversificadas e confiáveis”.
Para Brasília, esse é o trecho mais sensível. A avaliação é que, ao enquadrar o crime organizado como ameaça à segurança dos EUA, Washington abre brecha para aplicar a mesma lógica a outras áreas, que poderiam ser enquadradas como ameaças aos norte-americanos.
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras-raras do mundo, atrás da China. Diplomatas avaliam que esse é justamente o tipo de ativo que tende a ser reclassificado como questão de segurança à medida que a doutrina avança. Durante as negociações para tentar evitar o tarifaço, os Estados Unidos pediram ao Brasil medidas para limitar investimentos estrangeiros em minerais críticos — sobretudo chineses.
A declaração do governo norte-americano também anuncia a intenção de pedir ao Conselho Permanente da OEA (Organização dos Estados Americanos) uma reunião de consulta com base no TIAR (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca), de 1947. Esse é o passo concreto seguinte e deve levar semanas ou meses para avançar.
Enquanto isso, o governo brasileiro trata o tema com cautela e evita associá-lo a um cenário de conflito armado na região.
Não há, nos documentos divulgados até agora, qualquer menção a ação militar contra o Brasil ou a países vizinhos. O instrumental usado para impor a Doutrina Monroe tem sido diplomático e financeiro: sanções, bloqueio de bens e restrição de vistos.
Por isso, o governo brasileiro não vê risco de ação unilateral contra o Brasil por parte dos países que assinaram a declaração ao lado dos Estados Unidos. A maioria desses governos mantém boa relação e a avaliação é que devem manter a cooperação bilateral no combate ao crime organizado, independentemente do texto.
Em 15 de setembro de 2026, a Casa Branca enviou ao Congresso dos EUA um relatório anual sobre o tema. O texto afirma que o governo Lula falhou ao confrontar as facções PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho). O documento cobra ação urgente do governo brasileiro, mas o país não é classificado como produtor ou rota de drogas.
A preocupação é que Washington abra caminho para o uso da força à revelia do direito internacional. O governo enxerga nisso o mesmo caminho percorrido na intervenção na Venezuela que levou à captura de Nicolás Maduro (PSUV, esquerda).
Horas antes de a declaração ser divulgada, Lula já havia respondido ao tema na abertura da Assembleia Geral da ONU. Disse que o Brasil tem seus próprios instrumentos contra o crime organizado — caso da Lei Antifacção e da operação Carbono Oculto — e rejeitou qualquer papel externo na segurança das fronteiras brasileiras.
O mesmo raciocínio, segundo avaliação do Planalto, vale para os minerais críticos: qualquer acesso a reservas brasileiras passaria por regras definidas por Brasília, não por Washington.
No discurso, o presidente fez a única menção a Donald Trump (Partido Republicano) sem citar o nome dele. Disse que “não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas” e defendeu cooperação para conter o fluxo de armas e de dinheiro que financia o crime organizado. Segundo Lula, essa é a base de uma proposta que ele entregou pessoalmente a Trump, em Washington — que segue sem resposta dos Estados Unidos.
Antes do discurso na Assembleia Geral, por exemplo, Lula conversou no plenário da ONU com José Antonio Kast (Partido Republicano), presidente do Chile, e Rodrigo Paz (PDC), presidente da Bolívia. O presidente da Guiana, Irfaan Ali (PPP), também teve uma conversa com o petista no mesmo espaço. Todos assinaram a declaração do “Escudo das Américas”.
Fonte: Poder360
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O governo Lula avalia que a declaração do Escudo das Américas, assinada por 15 países sob liderança dos EUA, extrapola o combate ao crime organizado e pode ampliar a influência norte-americana na América Latina. O Palácio do Planalto entende que o texto pode funcionar como porta de entrada para uma reedição da doutrina Monroe, abrindo precedente para interferência em outras pautas estratégicas regionais. A preocupação é que o crime organizado seja usado como argumento para futuras ações mais duras sem passar por mecanismos multilaterais.
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